quinta-feira, 5 de março de 2009

Texto do CD contra cotas na íntegra

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Nota da Editora: Me sinto ultravelha quando me chamam de senhora

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Prezada Editora,

Escrevo sobre os bônus para vestibulandos na UFMG, que pela segunda vez consecutiva foram abordados no Carol. Na edição #312, vimos um texto do glorioso Pedro Nogueira, contra os bônus raciais ("uma bruta picaretagem") mas a favor dos bônus para escolas públicas ("legal, apesar de paliativo"). Na #313, vimos um texto de minha colega Cavanelas, Luciana Carvalho, a favor dos bônus raciais. Imagino que não seja contra-produtivo, portanto, me manifestar, visto que sou contra todo e qualquer bônus.

Afirmo: 10% é pra garçom, não pra universitário.

Nós vivemos numa democracia, sustentada por um acordo maior chamado Constituição, que afirma: todos são iguais, independentemente de raça, cor, credo, sexo, etc...

O fato de que a igualdade não se verifica na sociedade de facto não desobriga o governo de cumprir a Constituição. O governo e as instituições públicas brasileiras, COMO A UFMG, devem ser os principais seguidores da Constituição: devem agir por seus princípios mesmo em face de contradições ou pressões de grupos politiqueiros.

Srta. Editora, nosso glorioso Brasil podia se orgulhar de um mérito não observado no país do messias obâmico: desde 1888, nunca jamais em tempo algum tivemos algum regulamento racista oficial.

Tivemos racismo? Evidente que sim. Discriminação? É inegável. Mas não tínhamos o Estado, o governo, com nenhum regulamento que dividisse os brasileiros em raças e com base nisso atribuísse ou negasse benefícios. Esse legado acabou em 2002, quando a UERJ se tornou a primeira instituição brasileira a introduzir cotas; e durante a Doutrina Lula, vimos tais regulamentos se espalharem pelo País.

"Cotas" ou "bônus", para "negros" ou alunos de escola pública, tanto faz: são todos critérios que distorcem as notas de uns vestibulandos em favor de outros, negando frontalmente o princípio de que todos somos iguais. Não nego a existência de racismo, de pobreza, de discriminação: mas nego que a discriminação não-oficial deva ser combatida com a discriminação oficial. Todas os governos que classificaram seus cidadãos com base na raça foram totalitários ou pelo menos nada democráticos (caso dos governos estaduais da Geórgia e do Mississipi até o Civil Rights Act).

CURSINHOS - Os "bônus" ufmgísticos tornam-se ainda mais fantasiosos quando levamos em conta que ignoram a existência de um fenômeno importante: o cursinho. Aos olhos da COPEVE, o aluno ou bem estudou tantos anos em escola pública, ou não. Não interessa se a escola pública é boa; não interesse se apesar de sua presumida condição de renda ele conseguiu matricular-se em um bom cursinho. Quantos dos atuais alunos da UFMG, oriundos de escola pública, fizeram cursinho? Não sei se alguém sabe, mas a julgar pelo texto da Professora Antônia Aranha no Boletim de 2 de fevereiro , a COPEVE não se importa muito...

DISCORDÂNCIAS E INCORREÇÕES - Quero finalizar, Srta. Editora, expressando algumas discordâncias e incorreções com o texto da Luciana.

Primeiro, as políticas de bônus e cotas não são de forma alguma "uma questão de opinião pessoal". Pelo contrário, são questões públicas e muito sérias. Há no Senado um projeto de lei para cotizar metade das vagas nas universidades federais, elevando o cotismo da condição de decisão de Conselhos Universitários para programa obrigatório decidido desde Brasília, e inaugurando a primeira lei federal racista desde 1888.

Segundo, não é verdade que "aluno negro que estudou em escola particular ganha menos vantagem sobre os outros (só os 5%)". No "programa" da UFMG, os 5% adicionais estão disponíveis tão-somente para o auto-declarado "negro" de escola pública, estando o "negro" de escola particular em plena igualdade com seus colegas "brancos".

Em terceiro, pelo menos a julgar pelo livro "Não Somos Racistas", de Ali Kamel, não há pesquisas no Brasil sobre negros ganhando menos que brancos na mesma profissão. Não está provado que um taxista "branco" ganhe mais que um taxista "negro", que um porteiro "branco" ganhe mais que um porteiro "negro", que um engenheiro "branco" ganhe mais que um engenheiro "negro". Até que tais estudos apareçam (certamente desencadeando com eles processos penais aos chefes racistas desses profissionais), estamos no terreno da especulação. Não duvido que, em geral, "brancos" tenham salários mais altos que "negros" - mas tenho minhas dúvidas sobre as diferenças na mesma profissão. Já sobre a indesculpável diferença de salários entre homens e mulheres, concordo com a Luciana, e tal fenômeno é muito evidente.

Em quarto, não é verdade que uma vez vez no mercado de trabalho, a "negra de cabelo black power" receberá qualquer compensação ou vantagem sobre a "loira de cabelo liso", uma vez que as cotas e bônus em questão valem somente na UFMG, não sendo obrigatórias (ainda!) nas empresas privadas, salvo as vagas mínimas para deficientes físicos, sobre as quais não comentarei aqui e nem tenho opinião a respeito.

Quinto, último, e MAIS IMPORTANTE: toda e qualquer política cotista racial esbarra num dilema insolúvel, que é determinar quem é "negro" e quem não é:

a) ou faz como a UnB fazia, e cria um Comitê de Pureza Racial com agentes do Estado para determinar a sua "raça" com base em fotografias (brrrrrrr!!!!); ou

b) usa o critério da auto-declaração, abrindo amplo espaço para "fraudes", uma vez que loiras oxigenadas podem se declarar "negras" - e de fato o tem feito.

Quem merece 10% ou 15%? Srta. Editora, é da minha opinião que, até que o Reuni crie o curso de bacharelado de garçonaria e servilança social, 10% ou 15% são para garçons, não universitários. E quero crer que ninguém entra na UFMG para ser garçom. Não se trata de um comentário classista, elitista, embora certamente será tratado como tal por alguns leitores. Trata-se de uma piada para ressaltar que as pessoas entram na UFMG para subir na vida, e que a UFMG existe para produzir conhecimento. Não é nem deve ser sua missão "corrigir" os erros crassos de nosso sistema de educação - erros que, afinal de contas, também atingem a própria UFMG.

Aproveito a oportunidade para renovar à srta. os parabéns pelo bom trabalho no Carol, bem como meus votos de alta estima e consideração.

Cordialmente,

Frederico "Cedê" "Zimba" Silva (BRASILEIRO, 10º J)
doidimaiscorporation@gmail.com

6 comentários:

augusto disse...

o problema, CD, é que por mais que a constituição fale que somos iguais, nós não somos...

Cedê Silva disse...

Augusto: entendo, mas o governo deve nos tratar como se fôssemos.

2. Não chamei ninguém de "sra." e sim de "srta." ;-)

Pedro, o Nogueira disse...

Lívia, ele te chamou de Senhorita, isso não é pra velha...

.lívia disse...

verdade. perdoado ^^

Lu disse...

Zimba, só tenho dois comentários a fazer:

1) A Constituição prevê que somos iguais perante a lei, PORÉM ela mesma determina que o governo deve promover ações que permitam ou facilitem que essa igualdade seja efetivamente exercida. É por isso que a Constituição é chamada de "Cidadã". Portanto, dizer que ela está sendo desrespeitada pela política de bônus, é o mesmo que dizer que para "sermos iguais" a lei brasileira deve deixar "cada um por si e Deus por todos". O que todos nós sabemos que é mentira. Assim como sabemos que a idéia de que "todos têm as mesmas condições de alcançar o sucesso, que, por consequência, é derivado do mérito" é uma mentira deslavada que a elite insiste em acreditar para manter a posição de domínio que ela exerce sobre os pobres e negros.

2) Sei que a política de bônus/cotas ainda não foi implementada por todas as universidaes, e sei também que não vai haver esse tipo de ação no mercado de trabalho. O que eu quero dizer com "a disputa entre a negra de black power e a loira de cabelo liso" é que as políticas de ações afirmativas poderão, ao longo do tempo, ajudar na conscientização e na diminuição do preconceito; não por haver vagas reservadas para negros ou pardos nas empresas, mas pelo fato de haver um número proporcional de brancos e negros no mercado de trabalho. O aumento do número de negros qualificados vai ajudar a mostrar à sociedade que o fator "cor da pele" não deve ser um critério para segregação social.
Deu pra entender?

Lu disse...

ahh.. só mais três coisas:

3) É opinião pessoal porque todo mundo fala o que pensa. É óbvio que é uma questão séria e que o governo está prestes a tomar mais decisões a respeito disso, mas isso não exclui o fato de que a discussão é sempre movida por opiniões pessoais e visões particulares da realidade.

4) Concordo com o Carlos quanto à referência bibliográfica do Ali Kamel: não é pq o cara disse que é verdade.

5) Realmente o negro de escola particular não ganha o bônus, mas, com disse no meu texto (opinião minha): ele merece ganhar os 5% assim como o da escola pública, afinal, não é porque ele teve condições financeiras (ou circunstanciais, como, por exemplo, ganhar uma bolsa de estudos por ser filho de funcionário) para estudar em escola particular que ele não sofre ou vai sofrer com o preconceito (velado ou descarado).